Sobre manicures e caridade

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Sentadinha na sua mesa de trabalho, Joyce tentava tirar aquele cantinho insistente da cliente. Mas a querida não queria fazer o favor de parar o dedo quieto: era demais para ela, ainda mais com o Iphone 5 na outra mão. Adriene, a outra manicure do pequeno salão, olhava de relance para Joyce com aquele olhar que só elas entendiam – “Hoje vai ser pesado”. Dia antes do Natal, todas as madames vem em peso exigindo horário de última hora para suas respeitáveis unhas. E quem vai pagar o pato? Joyce e Adriene, que ficaram sozinhas no salão justamente esse dia. Ah, e a faxineira Roberta também, mas meio expediente só – e sem hora extra, coitada.

Roberta, sabendo que iria ter muita movimentação no salão esse dia, levou os presentes da Jequiti que ela revendia – era a sua hora de conseguir uma graninha extra para se virar bem em janeiro. Estava toda toda: com certeza tudo o que estava vendendo iria fazer sucesso entre as meninas do salão e a as clientes. Não foi barato – Roberta teve que pedir para todas suas amigas uma ajudinha pra comprar 30 kits presente pra depois revender – as expectativas eram altas. E hoje, véspera de natal, quando estava toda prosa e perfumada, esperava conseguir alcançar seu objetivo.

E lá foi Roberta de cabeleireira à depiladora perguntando se queriam o presente: “Perfeito pro Natal!” “Última fragrância” “Pra ficar na moda”, ia tentando convencer as colegas. É, tava sendo mais difícil que pensou. Só um 1 kit vendido. Parou do lado de Joyce e Adriene e das respectivas clientes das manicures, e pensou consigo mesma: “Essas duas são simpáticas, vão me ajudar comprando e convencendo as madames”.

– Joyce, Adriene, viram o kit pro natal que tô vendendo? Maravilhoso! E tá baratinho, 50 reais 10 produtos!

Joyce olhou de soslaio para Adriene com olhar de pena, e respondeu para Roberta:

– Olha que legal! Deixa aqui embaixo da minha mesa, já já acerto com você.

A cliente da Joyce logo parou de mexer no Iphone e olhou, pela primeira vez, perplexa para a manicure.

– Você vai comprar mesmo esse kit mais ou menos? 50 reais? É muito!

Joyce respondeu com aquele sorriso amarelo e risinho falso “Se madame acha caro 50 reais pra dar nesse kit, imagine eu, com 3 filhos pra criar sozinha no mundo?”. Não tá fácil pra ninguém. Mas sabia o que era passar fome. Sabia o que era chegar Janeiro e não ter o décimo terceiro para ajudar a pagar as contas. Precisava ajudar.

Assim que acabou a unha e sua cliente foi embora, falou para Adriene:

– Vamos ajudar? A Roberta precisa mais que a gente.

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PS: Ia começar o ano postando guias de viagem. Mas me deparei com essa cena final do ano passado e quis deixar registradinho, na memória e no blog, como uma lição para 2014: ser humilde e sempre, sempre ajudar os que necessitam. Não é questão de ser “coxinha” e  Sandy – é questão de mudar o que está na nossa cara, e a gente não vê  (ou ignora). Bora prestar mais atenção nisso? É assim que quero começar esse ano novo 😉

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